Começa com a música outonal.
Tudo tinha ruído, tudo tinha ruído, todo dia ruído, tudo tinha ruído.
E penso nos ruídos, nos sons, do dia. Sei, por exemplo, toda vez que meu vizinho entra e sai de sua casa. Sei que esperam um bebê e que reformam o quarto do herdeiro. Sei que alguém comprou o outro apartamento, do outro lado do corredor, porque não posso ignorar os ruídos que me acordam todos os dias. Vejo, com os ouvidos, os trabalhadores chegando, ainda adormecidos. Escuto a sirene da obra do prédio em frente que avisa a hora de começar, a hora de almoçar e a hora de partir. Nem preciso olhar pela janela quando escuto as buzinas, pois sei também que basta o motorista desavisado parar para escutar o silêncio de quando os sinais estão fechados e esquecer que precisa seguir em frente, que rapidamente ele é arremessado de volta para a realidade, onde você sempre está atrasado.
Tem ruído também o barulho do café quente sendo coado, a flauta doce que sai da janela do professor de música que mora perto do térreo. Também escuto um "windows ligando lá longe" que nem o Maurício e o barulho dos motores dos carros passando na madrugada me fazem sonhar com o mar.
Mas a música volta como um martelo e me lembra que há mais ali. Tudo tinha ruído. Não são apenas os sons, ela me grita desmantelamento. Tudo tinha ruído. Os entulhos. Jogados no mar. O entulho não descartado, esperando ser carregado. A ruína das relações que se cortam. A ruína do que se foi um dia. Tudo tinha ruído. O entulho da ruína do apartamento da frente do corredor. Tudo tem ruído. O entulho da ruína do ruído. A lama. Tudo vem ruindo.
beijo de borboleta
terça-feira, fevereiro 5
segunda-feira, dezembro 4
Paremos com os sussurros
Um Boeing caiu em território brasileiro. Um Boeing desses que levam mais de 200 passageiros. Que transitam e transportam pessoas de classe média e alta para fora do país. O terrível acidente gerou grande comoção na população nacional e no mundo. Imagine só quantas famílias foram afetadas pela morte de tantas pessoas. Hashtag somos todos boeing 777.
Não se sabe se os passageiros eram boas ou más pessoas, não se sabe se uns cometeram crimes ou foram vítimas dos crimes cometidos diariamente no país. Não sabemos se possuem mães, pais, filhos, maridos ou esposas. Tampouco conhecemos seus trabalhos, sua religião, sua orientação sexual, cidade de origem, idade, raça, peso, classe social. Poderia ser você ou eu, ou esse alguém que está do seu lado.
Na verdade, peço desculpas, eu menti até agora, sabemos uma coisa sobre os passageiros desse avião. A verdade é que todos eles eram mulheres jovens. E, infelizmente, essas mulheres poderiam ter escolhido voar em outro avião, mas foi decidido que iríamos esconder que havia outras opções e deixamos o perigo velado enquanto demonstramos que somos bons cristãos. Decidimos não fazer o esforço de dizer que elas poderiam não precisar fazer essa viagem, que os motivos que a fizeram decidir por partir poderiam não existir ou poderiam ser lidados de forma melhor pelo poder público. Enquanto outras mulheres com maior poder aquisitivo puderam comprar uma passagem em um jato particular, pelos mesmos "erros" cometidos, essas 244 mulheres não tiveram essa opção e morreram nessa viagem.
Isso aconteceu em 2017 e irá acontecer novamente em 2018, aconteceu também em 2016, 2015 e sabe-se lá quantos anos anteriores que as pesquisas já não possuem dados.
Eu não sei se você já sabe sobre o que estou falando, mas cerca de 244 mulheres morrem anualmente vítimas de complicações causadas por aborto. Agora que eu falei do que se trata, pode vestir a sua armadura de ódio e começar a proferir diversas outras coisas que pouco tem a ver com a discussão que aqui trago.
Me desculpa, mas eu também não quero ouvir o que você tem para falar.
Me desculpa, mas eu também não quero ouvir o que você tem para falar.
São 244 pessoas que poderiam ter tido outro destino, se tivessem sido informadas, se tivessem o poder de decisão sobre o que é melhor para sua vida, se tivessem o acesso ao acompanhamento médico necessário para se tomar esse tipo de decisão. Talvez, se tudo isso fosse cumprido, muito menos que 244 mulheres decidiriam fazer essa viagem e não precisariam sequer cogitar fazer um aborto.
Não adianta cochichar, falar baixo, mudar o canal, deixar de seguir. Metade das pessoas desse país (45% para ser mais justa) conhece alguém que realizou um aborto. Por que ainda cochichamos sobre isso?
Essa mesma pesquisa fala que 50% da população concorda que a mulher que decide fazer o aborto deve ir para a cadeia, mas 47 % não falariam se descobrissem que alguma conhecida fez o procedimento. Assim como tantos outros problemas entre nós, falta a capacidade, a vontade e a vergonha de se colocar no lugar do outro. Sair dessa posição confortável e perceber que as pessoas não têm acesso à informação como deveriam, nem o acompanhamento e cuidado que deveriam e ainda que ocorre um estupro a cada 11 minutos nesse país e o sexo, mesmo quando não consentido, pode engravidar e eternizar uma violência que se deseja ser esquecida.
Eu desabafei apenas sobre o aborto, mas muito outros boeings e muito mais numerosos caem anualmente no Brasil, porque ainda cochichamos sobre os problemas que esse país moralista enfrenta. São boeings de negros, travestis, homossexuais, mulheres, crianças, refugiados que estamos acobertando com nosso amor de cristão por manter uma consciência intacta ao não se falar do que realmente precisa ser discutido.
[fruto de conversas com Delano depois de ter lido essa reportagem]
quarta-feira, maio 3
eu queria escrever sobre o descaso
eu queria escrever sobre o descaso, sobre o descaso que sinto das pessoas que cruzo. talvez seja a minha própria ânsia de criar laços mais aprofundados ou então a timidez de de fato criá-los. o caso é que perdi a vontade de criar relações por conveniência. a preguiça de se ouvir os mesmos padrões repetidos, tantas insistentes vezes. a falta de substância. será que o descaso é o meu?
lembrei de um espetáculo do grupo galpão, o Nós, em que eles representam (além de outras coisas), com afinação, a ciclicidade do que eu vi como um domingo em família. o nosso patético estilo de cair na rotina repetidas vezes. de fazer da vida uma dança coreografada que seguimos de olhos fechados. são breves contratempos que nos tiram do ritmo vez ou outra, mas sempre voltamos. sempre voltamos. voltamos para a dança onde pessoas passam pelo palco e nós não trocamos o passo, não mudamos o ritmo. e elas saem e entram e a gente continua.
e fica o vazio, porque algo passou e nada aconteceu. nem em mim e nem em você. e ficamos assim no vazio.
lembrei de um espetáculo do grupo galpão, o Nós, em que eles representam (além de outras coisas), com afinação, a ciclicidade do que eu vi como um domingo em família. o nosso patético estilo de cair na rotina repetidas vezes. de fazer da vida uma dança coreografada que seguimos de olhos fechados. são breves contratempos que nos tiram do ritmo vez ou outra, mas sempre voltamos. sempre voltamos. voltamos para a dança onde pessoas passam pelo palco e nós não trocamos o passo, não mudamos o ritmo. e elas saem e entram e a gente continua.
e fica o vazio, porque algo passou e nada aconteceu. nem em mim e nem em você. e ficamos assim no vazio.
terça-feira, outubro 4
[queria tanto descobrir quem é o autor]
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não a via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza se queriam. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter sempre o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos"
quinta-feira, junho 23
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio - Bukowski
"Quanto a escrever, hoje escrevo basicamente da mesma forma que fazia há 50 anos, talvez um pouco melhor, mas não muito. Por que tenho que chegar aos 51 para poder pagar o aluguel com os meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, por que demorou tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora? Mal, é isso. Mas não acho que fiquei burro por acaso. Será que um cara burro se dá conta que é? Mas estou longe de estar satisfeito. Há alguma coisa em mim que não consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me faz seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda. Não me surpreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso."
segunda-feira, maio 23
Ela olhou suas unhas roídas, hábito que há tanto havia deixado de cultivar. Elas são a incontestável confirmação do algo que está desencaixado. Obstruindo.
Até seus demônios resolveram aparecer, logo antes da hora de se deitar. Velhos conhecidos insistindo em voltar e fazer companhia no momento propício. Ela só quer dormir, esperando que os dias passem rápido e que os sonos sejam longos.
Ela só quer dormir e acordar num dia que não fosse o mesmo.
Ultimamente suas entranhas reviram e queimam. Será outro indício? Seus líquidos travando uma batalha diária na tentativa de eliminar o sujeito estranho. Um intruso.
Se o errado está tão certo. Por que não mudar?
Até seus demônios resolveram aparecer, logo antes da hora de se deitar. Velhos conhecidos insistindo em voltar e fazer companhia no momento propício. Ela só quer dormir, esperando que os dias passem rápido e que os sonos sejam longos.
Ela só quer dormir e acordar num dia que não fosse o mesmo.
Ultimamente suas entranhas reviram e queimam. Será outro indício? Seus líquidos travando uma batalha diária na tentativa de eliminar o sujeito estranho. Um intruso.
Se o errado está tão certo. Por que não mudar?
domingo, maio 22
Tentando entender
Está tudo aí clamando por compreensão. Só que a gente vê como quer.
É que quando é a hora da gente ver e entender, tudo volta e reaparece.
Mas aí, a gente tem que olhar do jeito certo e é nisso que está o problema. Porque a alma é pequena, ou a cabeça muito grande e o homem, acomodado.
[três anos depois que escrevi isso, João Ubaldo me explicou o que realmente acontece, e o tempo me permitiu entender:
"Ignora-se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza".]
É que quando é a hora da gente ver e entender, tudo volta e reaparece.
Mas aí, a gente tem que olhar do jeito certo e é nisso que está o problema. Porque a alma é pequena, ou a cabeça muito grande e o homem, acomodado.
[três anos depois que escrevi isso, João Ubaldo me explicou o que realmente acontece, e o tempo me permitiu entender:
"Ignora-se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza".]
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