segunda-feira, dezembro 4

Paremos com os sussurros

Um Boeing caiu em território brasileiro. Um Boeing desses que levam mais de 200 passageiros. Que transitam e transportam pessoas de classe média e alta para fora do país. O terrível acidente gerou grande comoção na população nacional e no mundo. Imagine só quantas famílias foram afetadas pela morte de tantas pessoas. Hashtag somos todos boeing 777.
Não se sabe se os passageiros eram boas ou más pessoas, não se sabe se uns cometeram crimes ou foram vítimas dos crimes cometidos diariamente no país. Não sabemos se possuem mães, pais, filhos, maridos ou esposas. Tampouco conhecemos seus trabalhos, sua religião, sua orientação sexual, cidade de origem, idade, raça, peso, classe social. Poderia ser você ou eu, ou esse alguém que está do seu lado.

Na verdade, peço desculpas, eu menti até agora, sabemos uma coisa sobre os passageiros desse avião. A verdade é que todos eles eram mulheres jovens. E, infelizmente, essas mulheres poderiam ter escolhido voar em outro avião, mas foi decidido que iríamos esconder que havia outras opções e deixamos o perigo velado enquanto demonstramos que somos bons cristãos. Decidimos não fazer o esforço de dizer que elas poderiam não precisar fazer essa viagem, que os motivos que a fizeram decidir por partir poderiam não existir ou poderiam ser lidados de forma melhor pelo poder público. Enquanto outras mulheres com maior poder aquisitivo puderam comprar uma passagem em um jato particular, pelos mesmos "erros" cometidos, essas 244 mulheres não tiveram essa opção e morreram nessa viagem.
Isso aconteceu em 2017 e irá acontecer novamente em 2018, aconteceu também em 2016, 2015 e sabe-se lá quantos anos anteriores que as pesquisas já não possuem dados.

Eu não sei se você já sabe sobre o que estou falando, mas cerca de 244 mulheres morrem anualmente vítimas de complicações causadas por aborto. Agora que eu falei do que se trata, pode vestir a sua armadura de ódio e começar a proferir diversas outras coisas que pouco tem a ver com a discussão que aqui trago.
Me desculpa, mas eu também não quero ouvir o que você tem para falar. 

São 244 pessoas que poderiam ter tido outro destino, se tivessem sido informadas, se tivessem o poder de decisão sobre o que é melhor para sua vida, se tivessem o acesso ao acompanhamento médico necessário para se tomar esse tipo de decisão. Talvez, se tudo isso fosse cumprido, muito menos que 244 mulheres decidiriam fazer essa viagem e não precisariam sequer cogitar fazer um aborto.

Não adianta cochichar, falar baixo, mudar o canal, deixar de seguir. Metade das pessoas desse país (45% para ser mais justa) conhece alguém que realizou um aborto. Por que ainda cochichamos sobre isso?

Essa mesma pesquisa fala que 50% da população concorda que a mulher que decide fazer o aborto deve ir para a cadeia, mas 47 % não falariam se descobrissem que alguma conhecida fez o procedimento. Assim como tantos outros problemas entre nós, falta a capacidade, a vontade e a vergonha de se colocar no lugar do outro. Sair dessa posição confortável e perceber que as pessoas não têm acesso à informação como deveriam, nem o acompanhamento e cuidado que deveriam e ainda que ocorre um estupro a cada 11 minutos nesse país e o sexo, mesmo quando não consentido, pode engravidar e eternizar uma violência que se deseja ser esquecida.

Eu desabafei apenas sobre o aborto, mas muito outros boeings e muito mais numerosos caem anualmente no Brasil, porque ainda cochichamos sobre os problemas que esse país moralista enfrenta. São boeings de negros, travestis, homossexuais, mulheres, crianças, refugiados que estamos acobertando com nosso amor de cristão por manter uma consciência intacta ao não se falar do que realmente precisa ser discutido.

[fruto de conversas com Delano depois de ter lido essa reportagem]

Nenhum comentário:

Postar um comentário