terça-feira, outubro 4
[queria tanto descobrir quem é o autor]
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não a via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza se queriam. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter sempre o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos"
quinta-feira, junho 23
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio - Bukowski
"Quanto a escrever, hoje escrevo basicamente da mesma forma que fazia há 50 anos, talvez um pouco melhor, mas não muito. Por que tenho que chegar aos 51 para poder pagar o aluguel com os meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, por que demorou tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora? Mal, é isso. Mas não acho que fiquei burro por acaso. Será que um cara burro se dá conta que é? Mas estou longe de estar satisfeito. Há alguma coisa em mim que não consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me faz seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda. Não me surpreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso."
segunda-feira, maio 23
Ela olhou suas unhas roídas, hábito que há tanto havia deixado de cultivar. Elas são a incontestável confirmação do algo que está desencaixado. Obstruindo.
Até seus demônios resolveram aparecer, logo antes da hora de se deitar. Velhos conhecidos insistindo em voltar e fazer companhia no momento propício. Ela só quer dormir, esperando que os dias passem rápido e que os sonos sejam longos.
Ela só quer dormir e acordar num dia que não fosse o mesmo.
Ultimamente suas entranhas reviram e queimam. Será outro indício? Seus líquidos travando uma batalha diária na tentativa de eliminar o sujeito estranho. Um intruso.
Se o errado está tão certo. Por que não mudar?
Até seus demônios resolveram aparecer, logo antes da hora de se deitar. Velhos conhecidos insistindo em voltar e fazer companhia no momento propício. Ela só quer dormir, esperando que os dias passem rápido e que os sonos sejam longos.
Ela só quer dormir e acordar num dia que não fosse o mesmo.
Ultimamente suas entranhas reviram e queimam. Será outro indício? Seus líquidos travando uma batalha diária na tentativa de eliminar o sujeito estranho. Um intruso.
Se o errado está tão certo. Por que não mudar?
domingo, maio 22
Tentando entender
Está tudo aí clamando por compreensão. Só que a gente vê como quer.
É que quando é a hora da gente ver e entender, tudo volta e reaparece.
Mas aí, a gente tem que olhar do jeito certo e é nisso que está o problema. Porque a alma é pequena, ou a cabeça muito grande e o homem, acomodado.
[três anos depois que escrevi isso, João Ubaldo me explicou o que realmente acontece, e o tempo me permitiu entender:
"Ignora-se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza".]
É que quando é a hora da gente ver e entender, tudo volta e reaparece.
Mas aí, a gente tem que olhar do jeito certo e é nisso que está o problema. Porque a alma é pequena, ou a cabeça muito grande e o homem, acomodado.
[três anos depois que escrevi isso, João Ubaldo me explicou o que realmente acontece, e o tempo me permitiu entender:
"Ignora-se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza".]
domingo, fevereiro 28
Achei que o tempo era amigo
Acreditei que um dia, quando esse tempo passasse, as coisas seriam de outro jeito. Então teríamos espaço e especialmente o tempo de fazer tanto de uma foma diferente.
Deixei pra depois, para o momento oportuno, as conversas metafísicas. Só esqueci que o momento certo é sempre aquilo que está na nossa frente.
Ficou para o futuro o abraço de alma, o agradecimento. Eu achei que o tempo era amigo, mas não foi. E ficou muito tarde para deixar para depois.
Quem sabe se quando a luz também se fechar para mim, ou até mesmo em um sonho, eu possa ir te ver e viver todo o depois que o tempo não deixou acontecer.
Deixei pra depois, para o momento oportuno, as conversas metafísicas. Só esqueci que o momento certo é sempre aquilo que está na nossa frente.
Ficou para o futuro o abraço de alma, o agradecimento. Eu achei que o tempo era amigo, mas não foi. E ficou muito tarde para deixar para depois.
Quem sabe se quando a luz também se fechar para mim, ou até mesmo em um sonho, eu possa ir te ver e viver todo o depois que o tempo não deixou acontecer.
Assinar:
Postagens (Atom)