"Senta-te. Estende tuas pernas. Fecha os olhos e os ouvidos. Eu nada te direi durante cinco minutos para que possas pensar na Quinta Sinfonia de Beethoven. Vê, e isto será mais perfeito ainda, se consegues não pensar por palavras, mas criar um estado de sentimento. Vê se podes parar todo o turbilhão e deixar uma clareira para a Quinta Sinfonia. É tão bela.
Só assim a terás, por meio do silêncio. Compreendes! Se eu a executar para ti, ela se desvanecerá, nota após nota. Mal dada a primeira, ela não mais existirá. E depois da segunda, o o segundo não mais ecoará. E o começo será o prelúdio do fim, como em todas as coisas. Se eu a executar ouvirás música e apenas isto. Enquanto que há um meio de detê-la parada e eterna, cada nota como uma estátua dentro de ti mesmo.
Não a executes, é o que deves fazer. Não a escutes e a possuirás. Não fumes o teu cigarro e terás um cigarro aceso dentro de si. Não ames e terás dentro de ti o amor."
segunda-feira, novembro 19
quarta-feira, outubro 24
A Jangada de Pedra
São momentos em que o mundo sai dos eixos, percebemos que nada está seguro, e se pudéssemos dar voz ao que sentimos, diríamos: Foi por um triz...
domingo, setembro 16
gil vicente
Ninguém: Que andas tu i buscando?
Todo-o-Mundo: Mil cousas ando a buscar,
delas não posso achar,
porém ando perfiando,
por quão bom é perfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo-o-Mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: E eu hei de nome Ninguém,
e busco a coincidência.
Berzabu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei companheiro?
Berzabu: Que Ninguém busca coincidência,
e Todo-o-mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: Eu, virtude, que Deus mande
que tope co'ela já.
Berzabu: Outra adição nos acude:
escreve logo i a fundo,
que busca honra Todo-o-Mundo,
e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?
Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
Ninguém: E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errase.
Berzabu: Escreve mais, Dinato.
Berzabu: Que quer em estremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado
e Ninguém ser reprendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo-o-Mundo: Busco a vida e quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Berzabu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Berzabu: Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.
Todo-o-Mundo: E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estrovar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
Berzabu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Berzabu: Escreve
que Todo-o-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.
Todo-o-Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre a verdade digo,
sem nunca me desviar.
Berzabu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Berzabu: Que Todo-o-Mundo: é mentiroso
e Ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais busca?
Todo-o-Mundo: Lisonjar.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Berzabu: Escreve, anda lá mano.
Dinato: Que me mandas assentar?
Berzabu: Poe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
Todo-o-Mundo: Mil cousas ando a buscar,
delas não posso achar,
porém ando perfiando,
por quão bom é perfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo-o-Mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: E eu hei de nome Ninguém,
e busco a coincidência.
Berzabu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei companheiro?
Berzabu: Que Ninguém busca coincidência,
e Todo-o-mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: Eu, virtude, que Deus mande
que tope co'ela já.
Berzabu: Outra adição nos acude:
escreve logo i a fundo,
que busca honra Todo-o-Mundo,
e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?
Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
Ninguém: E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errase.
Berzabu: Escreve mais, Dinato.
Berzabu: Que quer em estremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado
e Ninguém ser reprendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo-o-Mundo: Busco a vida e quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Berzabu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Berzabu: Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.
Todo-o-Mundo: E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estrovar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
Berzabu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Berzabu: Escreve
que Todo-o-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.
Todo-o-Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre a verdade digo,
sem nunca me desviar.
Berzabu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Berzabu: Que Todo-o-Mundo: é mentiroso
e Ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais busca?
Todo-o-Mundo: Lisonjar.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Berzabu: Escreve, anda lá mano.
Dinato: Que me mandas assentar?
Berzabu: Poe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
sábado, setembro 8
sábado, junho 2
Quincas Borba
"Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para nao discernir os risos e as lágrimas dos homens."
segunda-feira, março 12
Quincas Borba
"Humanitas é o princípio. Há nas cousas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, - ou, para usar a linguagem do grande Camões:
Uma verdade que nas cousas anda
Que mora no visíbil e invisíbil
[...]"
Uma verdade que nas cousas anda
Que mora no visíbil e invisíbil
[...]"
quarta-feira, março 7
o grande mentecapto
"Foi ele! Esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! Enquanto meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado, dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou em um pedestal e lhe ofertou uma flor, quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa-de-força com que tolhiam seu protesto. Esse ser engasgado, subjugado, contido pela ordem iníqua dos racionais, é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, cerne da minha condição de homem, herói e pobre diabo, pária, negro, judeu, índio, santo, poeta mendigo e débil-mental. Viramundo! Que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura."
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