Começa com a música outonal.
Tudo tinha ruído, tudo tinha ruído, todo dia ruído, tudo tinha ruído.
E penso nos ruídos, nos sons, do dia. Sei, por exemplo, toda vez que meu vizinho entra e sai de sua casa. Sei que esperam um bebê e que reformam o quarto do herdeiro. Sei que alguém comprou o outro apartamento, do outro lado do corredor, porque não posso ignorar os ruídos que me acordam todos os dias. Vejo, com os ouvidos, os trabalhadores chegando, ainda adormecidos. Escuto a sirene da obra do prédio em frente que avisa a hora de começar, a hora de almoçar e a hora de partir. Nem preciso olhar pela janela quando escuto as buzinas, pois sei também que basta o motorista desavisado parar para escutar o silêncio de quando os sinais estão fechados e esquecer que precisa seguir em frente, que rapidamente ele é arremessado de volta para a realidade, onde você sempre está atrasado.
Tem ruído também o barulho do café quente sendo coado, a flauta doce que sai da janela do professor de música que mora perto do térreo. Também escuto um "windows ligando lá longe" que nem o Maurício e o barulho dos motores dos carros passando na madrugada me fazem sonhar com o mar.
Mas a música volta como um martelo e me lembra que há mais ali. Tudo tinha ruído. Não são apenas os sons, ela me grita desmantelamento. Tudo tinha ruído. Os entulhos. Jogados no mar. O entulho não descartado, esperando ser carregado. A ruína das relações que se cortam. A ruína do que se foi um dia. Tudo tinha ruído. O entulho da ruína do apartamento da frente do corredor. Tudo tem ruído. O entulho da ruína do ruído. A lama. Tudo vem ruindo.
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