sexta-feira, fevereiro 17

O silêncio e a música - por velho Germano

"[...]

- Ia lhe dizer agora uma coisa muito importante. Mas é tão importante que prefiro não dizer. Só é sincero aquilo que não se diz. Boa noite.
- Então isso também não é sincero.
- Também não. Só o silêncio é sincero. O silêncio de uma pessoa dormindo, por exemplo. Como é sincero alguém dormindo! Sincero como uma flor. Imagine se uma flor falasse, que ridículo não seria. Por isso é que não gosto de desenho animado. Dormindo é que cada um se revela, por causa do silêncio, ou seja: feito à imagem e semelhança de Deus.
- E os que roncam? - gracejou Eduardo. O velho fulminou-o com o olhar:
- Quem ronca no homem é o demônio. A luta se trava até dentro do sono, só cessa na morte. Os mortos não roncam, seu doutor, porque Deus vence sempre. O silêncio é a linguagem de Deus. No princípio era o Verbo, vocês sabem o que é isso? O silêncio, o espantoso silêncio do princípio. Ah" o verbo e o silêncio são a mesma coisa. Que coisa bonita que eu falei, minha Nossa Senhora. É preciso escutar o silêncio, não como um surdo, mas como um cego! O silêncio das coisas tem um sentido. Quem não entende isso não entende nada.
[...]
- E a música? - desafiou Eduardo.
- A música - o velho traçou com o dedo uma pausa no ar - é a expressão mais completa do que estou dizendo. Ou do que não estou dizendo, pois é preciso ouvir apenas o que não se diz. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. Eu ia chegar nela. A música também é silêncio. Bach sabia disso, Mozart também. Beethoven só soube quando ficou surdo. O ar não é silencioso? O vento não faz barulho? E que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento.
- O mesmo com as palavras.
- Não senhor: as palavras estão em quem fala e em quem escuta. O silêncio fica entre os dois, intocado, um silêncio enorme intransponível. Ao passo que a música está nela mesma, isto é, no que resta além de nós. E o resto é silêncio. Adeus.
Já à porta:
- Reparem como o meu silêncio é mais sugestivo do que qualquer palavra.
Olhou fixamente o casal durante algum tempo e voltou-se solene, cruzou lento a rua, a garrafa de uísque na mão."

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