domingo, setembro 16

gil vicente

Ninguém: Que andas tu i buscando?

Todo-o-Mundo: Mil cousas ando a buscar,
delas não posso achar,
porém ando perfiando,
por quão bom é perfiar.

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo-o-Mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

Ninguém: E eu hei de nome Ninguém,
e busco a coincidência.

Berzabu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei companheiro?

Berzabu: Que Ninguém busca coincidência,
e Todo-o-mundo dinheiro.

Ninguém: E agora que buscas lá?

Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: Eu, virtude, que Deus mande
que tope co'ela já.

Berzabu: Outra adição nos acude:
escreve logo i a fundo,
que busca honra Todo-o-Mundo,
e Ninguém busca virtude.

Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.

Ninguém: E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errase.

Berzabu: Escreve mais, Dinato.

Berzabu: Que quer em estremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado
e Ninguém ser reprendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu?

Todo-o-Mundo: Busco a vida e quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.

Berzabu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte?

Berzabu: Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.

Todo-o-Mundo: E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estrovar.

Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.

Berzabu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Berzabu: Escreve
que Todo-o-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.

Todo-o-Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre a verdade digo,
sem nunca me desviar.

Berzabu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Berzabu: Que Todo-o-Mundo: é mentiroso
e Ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais busca?

Todo-o-Mundo: Lisonjar.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Berzabu: Escreve, anda lá mano.

Dinato: Que me mandas assentar?

Berzabu: Poe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.

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